sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

15 de FEVEREIRO














Breve Parinirvana Sutra

Quando Xaquiamuni Buda girou, pela primeira vez, a roda do Darma Ajnata-kaundinya despertou e em seu último discurso do Darma foi Subhadra, quem se iluminou. Todos que deveriam ser despertos assim o foram. Entre duas árvores sala, Xaquiamuni Buda estava quase entrando Parinirvana. Era o meio de uma noite calma, sem sons. Para o bem de todos seus discípulos Xaquiamuni Buda fez uma breve explanação dos fundamentos do Darma:

Ó Monges! Depois de minha morte respeitem e compartilhem os Preceitos. Manter os Preceitos é como encontrar uma luz na escuridão, como uma pessoa pobre encontrando um grande tesouro. Saibam que os Preceitos são seu mestre. Manter os Preceitos é Me manter sempre vivo neste mundo. Aqueles que mantém os Preceitos não devem se dedicar ao comércio e não devem possuir campos e moradias, não devem governar sobre outras pessoas nem manter servos ou animais. Devem evitar ter plantações e acumular bens da mesma forma que se evita uma fogueira. Não devem cortar grama nem árvores, arar o solo ou cavar a terra. Misturar remédios, ler a sorte, observar a posição das estrelas, predizer as fases da lua, calcular calendários e dias auspiciosos são coisa que não devem ser feitas.

Controlem seus corpos, comam nas horas certas, se conduzam em pureza. Não se envolvam nos afazeres mundanos nem ajam como mensageiros, não façam mágicas, não misturem poções nem se tornem íntimos com pessoas eminentes. Tudo isso não deve ser feito. Com a mente clara e atenção correta vocês devem procurar o despertar. Vocês não devem esconder seus erros, exprimir pontos de vista errôneos nem liderar pessoas erradamente. Ao receber as quatro espécies de ofertas, saibam a quantia correta e fiquem satisfeitos. Não acumulem ofertas.

Agora vou falar brevemente em como proteger os Preceitos. Os Preceitos são as bases da verdadeira libertação, por isso são chamados de pratimoksa - o que leva à libertação. A confiança nos Preceitos faz surgir todos os dhyanas e a sabedoria da extinção do sofrimento. Por esta razão, ó Monges, vocês devem manter os Preceitos e não os devem infringir. Se vocês mantiverem os Preceitos obterão o bem. Se não os mantiverem, nenhum mérito surgirá. Assim, saibam que os Preceitos são o local aonde vive a equanimidade, que é o mérito fundamental.

Ó Monges! Vocês que mantém os Preceitos devem controlar os cinco sentidos. Não deixem os sentidos desprotegidos permitindo que os cinco desejos penetrem. É como um vaqueiro brandindo sua vara para evitar que o gado invada a plantação de outra pessoa. Se há indulgência nos cinco sentidos os cinco desejos ficarão à solta e vocês serão incapazes de controlá-los. Novamente repito, é como um cavalo bravo que não pode ser controlado pelo chicote e cai numa vala levando seu cavaleiro com ele. Assim como o sofrimento de ser ferido por um ladrão dura apenas uma vida, o mal causado pelos cinco sentidos se estende através de muitas vidas criando grande dor. Não negligenciem a atenção. É por esta razão que a pessoa sábia controla seus sentidos e não os segue, mantendo-os guardados, não permitindo que vagueiem ao léu e mesmo quando os libertam, logo todos se extinguem.

A mestra dos cinco sentidos é a mente. Por esta razão vocês devem controlar suas mentes. A mente deve ser mais temida do que cobras venenosas, bestas selvagens ou assaltantes vingadores - mesmo grandes incêndios e destrutivas enchentes não podem a ela ser comparadas. É como uma pessoa que correndo celeremente com uma jarra de mel nas mãos olhe apenas para o mel e não veja um grande buraco. Repito, é como um elefante enlouquecido sem uma corrente ou um macaco pulando nos galhos das árvores - ambos são muito difíceis de se controlar. Dominem a mente imediatamente e não a deixem desembestar.

Se cederem, perderão a boa sorte de terem nascido humanos. Se mantiverem a mente focalizada, não haverá nada que não possam obter. Por esta razão, Monges, vocês devem se esforçar com muita diligência para manter a mente sob controle.

Ó Monges! Quando receberem comida e bebida vocês devem considerá-las como remédio. Não peguem mais daquilo que gostam e menos daquilo que desgostam. Apenas aceitem o suficiente para manter suas vidas e evitar fome e sede. Assim como a abelha apanha apenas a doçura das flores sem manchar sua cor ou tirar sua fragrância, assim vocês devem fazer. Aceitem apenas o suficiente das ofertas para evitar tristezas. Não peçam muito para não destruir boas intenções. Isto pode ser comparado com uma pessoa sábia que conhece a força de seu touro e não o sobrecarrega.

Ó Monges! Durante o dia, pratiquem com determinação o bom ensinamento. Não percam tempo. Da mesma forma, à noite e pela manhã, antes do amanhecer, não negligenciem seus esforços. No meio da noite recitem os sutras. Assim vocês devem ordenar suas vidas. Não deixem que a vida passe à toa, sem obter a realização, apenas dormindo. Vocês devem se lembrar que o mundo todo está sendo consumido pelo fogo da impermanência. Rapidamente procurem pelo despertar e não por dormir. As paixões estão sempre prontas para matar uma pessoa, mais do que seu inimigo mortal. Como vocês podem ficar dormindo e abaixar a guarda? As paixões são como uma cobra venenosa dormindo em sua mente. Não são diferentes de uma cobra negra dormindo em seu quarto: espante-a com a ponta aguda dos Preceitos. Só depois da cobra adormecida sair vocês poderão dormir pacificamente. Se dormirem enquanto a cobra ainda está lá vocês estarão agindo sem consciência. Entre as coisas refinadas, a tecedura da consciência é a melhor. A consciência é como uma agulha de ferro com a qual se pinçam os enganos. Assim sendo, Monges, sempre sigam sua consciência e não a ignorem nem por um só momento. Esquecendo-se da consciência perdem-se todos os seus méritos. Aqueles que conhecem o pudor sabem do bom ensinamento. Aqueles que não conhecem o pudor não são diferentes de bestas selvagens.

Ó Monges! Se alguém vier desmembrá-los, articulação por articulação, vocês devem controlar a mente e não permitir que o ódio surja. Da mesma forma vocês devem proteger suas bocas, caso contrário, palavras más sairão delas. Se vocês permitirem pensamentos de raiva vocês estarão obstruindo seus próprios caminhos e perdendo o benefício de seus méritos. A paciência é uma virtude que não se iguala nem a manter os Preceitos, nem as práticas ascéticas. As pessoas que praticam paciência podem verdadeiramente ser chamadas de poderosas, de seres superiores. Aquelas pessoas que não podem aceitar o veneno do abuso com paciência e alegria, como se estivessem bebendo o néctar celestial, não podem ser chamadas de pessoas de sabedoria que adentraram o Caminho. Por que? Porque os efeitos maléficos do ódio quebram todos os bons ensinamentos e destroem o bom nome, de forma que, tanto no presente como no futuro, outras pessoas não sentirão prazer em vê-los. Vocês devem saber que o ódio é mais poderoso que um fogo ardente. Sempre se protejam e não permitam que a raiva penetre. Nenhum ladrão rouba mais méritos do que o ódio. Leigos cheios de desejos, sem praticar o Caminho, não conhecendo os ensinamentos, sem capacidade para se controlar - neles a raiva pode ser desculpável. Mas, aqueles que deixaram o lar e praticam o Caminho do não desejo nunca devem permitir que o ódio surja, assim como o trovão e o raio não ocorrem num céu suave e claro.

Monges! Lembrem-se de suas cabeças raspadas. Vocês já abandonaram ornamentação, usam roupas simples e são pedintes. Vejam-se assim: se o orgulho surgir vocês o devem extinguir imediatamente. Cultivar o orgulho não é apropriado mesmo para aqueles vivendo no mundo, quanto mais para aqueles que deixaram seus lares para entrar no Caminho - aqueles que controlam seus corpos e praticam o esmolar para obter libertação.

Ó Monges! Uma mente desonesta é incompatível com o Caminho. Por esta razão vocês devem cultivar honestidade. Vocês devem saber que desonestidade só produz enganos. Alguém que entrou o Caminho, logo, não vive nesse plano. É por isso, Monges, que vocês devem ter a mente correta e agir baseados na honestidade.

Ó Monges! Vocês também devem saber que uma pessoa de muitos desejos, procurando grandiosidade apenas para si mesmo, sofre muito. A pessoa de poucos desejos, nem procurando nem desejando nada, não tem esse pesar - esta a simples razão pela qual vocês devem praticar o mínimo de desejos. Mais do que isso: devem praticar poucos desejos porque é a fonte de todos os bons méritos. Uma pessoa de poucos desejos não manipula a mente dos outros desonestamente nem é levada pelos seis órgãos dos sentidos. A mente daqueles que praticam poucos desejos é tranqüila e não tem preocupações. Seja o que tiver é suficiente, nunca há insuficiência. Para aqueles que tm poucos desejos o Nirvana existe. Esta é a prática de poucos desejos.

Ó Monges! Se vocês querem se libertar de todo sofrimento vocês devem conhecer o contentamento. O estado de contentamento é a condição de prosperidade e bem estar. Aquele que está contente fica feliz mesmo quando tem apenas a terra para se deitar sobre ela. Aquele que não fica contente está insatisfeito mesmo em palácios celestiais. Quem não conhece o contentamento é pobre apesar de todas as riquezas que possa ter. Alguém que é contente é rico não importando quão pobre possa ser. Quem não conhece o contentamento é sempre arrastado pelos desejos provocados pelos cinco sentidos e deve ser apiedado por quem é contente. Esta é a prática do contentamento.

Ó Monges! Se vocês procuram pela benção da tranqüilidade irremovível, vocês devem abandonar o tumulto da sociedade e viver a sós em um retiro quieto. Aqueles que vivem em solidão são honrados por Indra e pelos seres celestiais. Por isso vocês devem deixar tanto as suas como as outras comunidades e viver a sós em locais remotos com a intenção de extinguir a origem do sofrimento. Os ávidos por companhia recebem os sofrimentos de estar em companhia, assim como uma árvore corre o risco de murchar se muitos pássaros viverem nela. Se estiverem apegados ao mundo, irão afundar no sofrimento comum assim como um velho elefante se afoga na areia movediça e não consegue dali sair. Tal é a prática do isolamento.

Ó Monges! Se vocês diligentemente praticarem o esforço correto nada será difícil. Por isto vocês devem diligentemente praticar o esforço correto, assim como o constante gotejar da água pode furar uma rocha. Se a mente do praticante for inclinada à indolência será como alguém que esfregasse a madeira para iniciar o fogo e descansasse antes da madeira ficar quente. Mesmo que essa pessoa queira o fogo, a faísca não acontece. Tal é a prática do esforço correto.

Ó Monges! Não percam a atenção quando procurarem por um professor ou por um amigo. Se vocês não perderem a atenção, as paixões não poderão entrar. Por isso, Monges, sempre mantenham a atenção. Se perderem a atenção, perderão todo o mérito. Se o poder de sua atenção for forte você não poderá ser ferido pelos desejos provocados pelos cinco sentidos, mesmo que surjam, da mesma maneira que, se entrar numa batalha usando uma armadura não terá o que temer. Esta é a prática de não perder a atenção.

Ó Monges! Se unificarem suas mentes, suas mentes estarão concentradas. Quando suas mentes estão concentradas vocês poderão compreender as marcas do surgir e do extinguir em todas as coisas no mundo. Por isto, ó Monges, vocês devem sempre e diligentemente praticar a concentração. Se obtiverem a concentração suas mentes não ficarão dispersas. Assim como um lugarejo, para conservar água mantém suas barragens em bom estado, assim o praticante, para o bem da água da sabedoria, deve concentrar-se em meditação e não permitir que vaze. Tal é a prática da concentração.

Ó Monges! Se vocês tiverem sabedoria não terão ganância. Observem-se e não permitam que a sabedoria se perca. Então, através dos Meus ensinamentos vocês poderão se libertar. Se assim não o fizerem não serão considerados seguidores do Caminho, nem mesmo leigos serão. Em verdade, a sabedoria é um navio forte que os leva através do oceano da velhice, doença e morte. Repito, é uma grande lâmpada iluminando a escuridão da ignorância. É um remédio maravilhoso para todas as doenças. É um machado afiado que corta a árvore das paixões. Por isso, ó Monges, através do ouvir, do pensar e do praticar, vocês devem aumentar sempre a sabedoria. Se vocês possuírem o brilho da sabedoria poderão ver claramente mesmo com seus olhos de carne. Tal é a sabedoria.

Ó Monges! Se vocês se engajarem de forma leviana em conversas inúteis suas mentes ficarão confusas. Mesmo que tenham abandonado suas casas não poderão obter libertação. Por isto, Monges, devem imediatamente abandonar pensamentos confusos e conversas desnecessárias. Se quiserem obter a benção do Nirvana vocês devem apenas extinguir o mal de falar à toa. Tal é a prática de evitar a fala fútil.

Ó Monges! De todas atividades meritórias vocês devem, de todo coração, concentrar-se em afastar qualquer forma de indulgência pessoal, assim como vocês evitariam um ladrão. O benéfico ensinamento de grande compaixão do Mais Honrado agora se completou.

Monges, vocês devem se esforçar diligentemente na prática do Ensinamento. Tanto se viverem nas montanhas como à beira d'água, sob uma árvore, num local remoto ou num aposento sossegado, coloque sua atenção no Ensinamento que recebeu e não o esqueça. Vocês devem sempre se empenhar na prática do Ensinamento e do esforço correto. Se morrerem em vão, sem ter feito nada, vocês se arrependerão no futuro. Sou como um bom médico que reconhecendo uma doença prescreve a receita apropriada - se o remédio é tomado ou não, já não é de responsabilidade do médico. Novamente digo: sou como um bom guia que mostra às pessoas o melhor caminho. Se elas não o seguirem, sabendo de sua existência, não é culpa do guia.

Ó Monges! Se tiverem qualquer dúvida sobre as Quatro Nobres Verdades perguntem imediatamente. Não guardem as dúvidas sem procurar resolvê-las.

Por três vezes o mais Honrado exortou os Monges desta forma, mas ninguém na assembléia falou, pois ninguém tinha dúvidas.

Nesse momento Aniruddha, percebendo a mente dos que estavam ali reunidos disse a Buda:

- Honrado do Mundo! Mesmo que a Lua fique quente e o Sol torne-se frio, as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda não podem mudar. A verdade do sofrimento ensinada por Buda é do verdadeiro sofrimento que não pode virar felicidade. Apego é sua causa verdadeira e não há outra causa. O sofrimento é destruído quando sua causa é destruída. O Caminho da destruição do sofrimento é o Caminho da Verdade e não há outro caminho.

- Honrado do Mundo! Todos estes Monges têm certeza e não têm dúvidas em relação as Quatro Nobres Verdades. Se nesta assembléia houver alguém que ainda não completou sua compreensão, ao ver a passagem de Buda, eles se lamentarão. E aqueles que apenas agora estão penetrando o Ensinamento, obterão o despertar ao ouvir as palavras de Buda, assim como na escuridão da noite um raio ilumina a estrada. Se houver aqueles que já tenham completado sua compreensão e cruzado o mar de sofrimento eles terão apenas este pensamento: Quão rápida é a passagem do Mais Honrado do Mundo!

Quando Aniruddha falou estas palavras, todos na assembléia claramente compreenderam o significado das Quatro Nobres Verdades. Mas o Honrado do Mundo, querendo que todos nesta grande assembléia se tornassem mais fortes, ainda falou assim movido por sua infinita compaixão:

Ó Monges! Não se lamentem! Mesmo que eu vivesse no mundo tanto quanto um kalpa, nosso estar juntos um dia acabaria. Não existe o encontro sem a despedida. O Ensinamento que beneficia tanto a si próprio como aos outros se completou. Mesmo que eu vivesse mais não haveria nada a adicionar ao Ensinamento. Aqueles que deveriam ser despertados, tanto nos céus como entre seres humanos, todos foram acordados. Aqueles que não foram despertados todos possuem as condições para obter o despertar. Se todos meus discípulos, de geração em geração a partir de agora, praticarem o Ensinamento, o Corpo do Dharma do Tathagata existirá para sempre e nunca será destruído.

Logo saibam que tudo no mundo é impermanente: o que se junta inevitavelmente se separa. Não se preocupem, pois esta é a natureza da vida. Diligentemente pratiquem o esforço correto e procurem a libertação imediatamente. Com a luz da sabedoria destruam a escuridão da ignorância. Nada é seguro. Tudo nesta vida é precário.

Agora obtenho Parinirvana. É como livrar-se de uma doença maléfica. Esta coisa má que descartamos é o que chamamos de corpo. Está afogado no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Como poderia haver alguma pessoa sábia que não se alegrasse em desfazer-se dele?

Ó Monges! Vocês devem sempre, de todo coração, procurar o Caminho da Libertação. Todas as coisas no mundo, tanto as que se movem quanto as que não se movem, são caracterizadas por instabilidade e desaparecimento.

Parem agora! Não falem! O tempo passa. Atravesso para a outra margem. Este é meu ensinamento final.

Tradução de Japonês para Inglês de Kazuaki Tanahashi e Jonathan Condit

San Francisco, maio de 1980.

Do Inglês para o Português pela Monja Coen em fevereiro de 2002.

 



 

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