quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Operação Cracolândia e Favela Pinheirinho: Olhar em profundidade







Estou estudando o Livro “O Cálice e a Espada" de Riane Eisler, Editora Palas Athena.



Em seu prefácio, Humberto Maturana conceitua "Cultura" enquanto "uma rede de coordenações de emoções e ações na linguagem que configura o modo particular de entrelaçamento do agir, do emocionar das pessoas que a vivenciam". Continua ainda o texto, "aproveitando a etimologia latina da palavra significa "dar voltas juntos."


E, ...uma cultura se transforma em outra quando muda a rede de conversações que a constitui e define.


"A cultura patriarcal ocidental à qual pertencemos se caracteriza enquanto rede de conversações, pelas coordenações peculiares de ações e emoções que constituem nossa convivência de valorização da guerra e da luta, da aceitação das hierarquias, da autoridade e do poder, da valorização do crescimento e da procriação e de justificação racional do controle do outro através da apropriação da verdade."


...na cultura patriarcal, a nota fundamental das relações humanas é dada pela submissão ao poder e à razão..."


Ações planejadas para a "erradicação" dos problemas que "ferem a ordem social", integram medidas estratégicas de guerra.


Tanto as invasões violentas de áreas, apoiadas por argumentos da defesa de direitos, quanto as desapropriações violentas também apoiadas pelos argumentos da defesa de direitos; as invasões à núcleos consolidados para a dispersão de dependentes químicos, fazem parte de estratégias de guerra, guerrilhas.


Os discursos veementes, febris se justificam na defesa de Direitos de todos os envolvidos e nas inúmeras condições. E, a forma violenta adotada é filha da lógica da Cultura de Guerra, Cultura do patriarcado.


E, na mesma lógica, as mobilizações de ONGs e Estado para a "guerra contra a fome, contra miséria, luta por habitação, moradia, emprego...ações de apropriações......


A questão não é o questionamento da existência ou não das necessidades ou dos direitos, mas as formas adotadas por nós, sociedade como um todo, de como as identificamos/percebermos, reconhecemos e respondemos a elas.


A nossa lente é a lente da cultura de guerra. Em nossa rede de conversações e de emoções, a reproduzimos incessantemente.


Nos digladiamos, insanos e insanas, movidos e movidas por necessidades não atendidas e por serem atendidas...


Somos da mesma natureza humana e compartilhamos o mesmo espaço de convivência, e perdemos o "contato com o outro", perdemos a capacidade de perceber o outro e a nós mesmos, desconfiamos, perdemos a confiança em nós mesmos...


A cultura do patriarcado justifica a guerra como meio para a “paz”. Apenas nessa reflexão há muitos livros, tratados, e debates que hoje ocorrem no mundo...


E, nesse processo surgem vozes que buscam clarificar o que está por baixo da Cultura de Guerra. E, tais reflexões nos ajudam a compreender a complexidade dos fatos que nos cercam cotidianamente.


Fatos esses que necessitam de nova leitura. A "leitura em profundidade" e ao compreender sobre novas lentes, reconfigurar as redes de conversações e emoções e delinear a cultura matrística.


A cultura matrística, apoiada, segundo Maturana, na “biologia do amor”, se constitui pela prática do diálogo, da atenção às necessidade básicas humanas, construção coletiva de oportunidades e ações, integração e somatória de recursos humanos, técnicos e financeiros para a erradicação das desigualdades e, nesse sentido, o compartilhamento de saberes para a mediação e atenção de necessidades. Como consequência, recursos e condições para que todo cidadão e cidadã acessem à educação, trabalho, segurança, saúde, habitação, lazer, cultura...


Entre tantas vozes compartilho com vcs Mahatma Gandhi e Johan Gantung.


Mahatma Gandhi, que liderou 250 milhões de hindus no processo de independência da Índia, definiu violência como qualquer coisa que possa impedir a autorealização individual, não apenas atrasando o progresso de uma pessoa, mas também mantendo-a estagnada. Sob essa perspectiva, a violência é violenta porque leva ao retrocesso!


Johan Galtung especialista em mediação e prevenção de conflitos nos traz a reflexão da questão da relevância das necessidades básicas e a sua relação com as origens dos conflitos. Afirmou: "nós não escolhemos as nossas necessidades básicas. Elas é que nos escolhem. E é a satisfação delas que nos torna possíveis. Se descartarmos nossas necessidades básicas, ou as dos outros, estamos condenando a todos a uma vida não digna de seres humanos." As necessidades básicas - sobrevivência - bem estar - liberdade - identidade, são mais profundas do que os valores. Estão acima deles...assim, praticamos violência quando não consideramos a relevância das necessidades básicas.


E, esse contexto da cultura do patriarcado, a violência se manifesta desde simbolicamente, psicologicamente, estruturalmente (nas instituições privadas, públicas) à física.


A violência física quando se manifesta veio da fornalha de tantas outras violências acumuladas sofridas...(psiquiatra Marshall Rosemberg).


Parando um pouco por aqui...






1. Há que se investir esforços para a transformação dessa cultura de guerra, - e reconheçamos, nos formou, formatou, - observando, inicialmente, a sua manifestação em nossa forma de perceber, pensar e agir .






1. Testemunhamos cotidianamente dramas em nossa sociedade. Fatos que atingem todas as faixas da população, da menos vulnerável a mais vulnerável. Como ler esses acontecimentos e como começar a opinar e a agir sobre a lente do “ver em profundidade?” E assim, desenvolver mobilizações sociais de equidade? De desconstrução de pressupostos discriminatórios e das formas sutis e grosseiras de violência por formas conciliatórias, reconstitutivas da dignidade humana?






1. E, sob a lente da biologia do amor, da cultura matrística, que nos mobiliza ao acolhimento, ao entendimento da rede de necessidades, à capacidade de mediação, do diálogo, do compartilhamento de saberes, e que desenvolve competências e habilidades, pergunto a vcs, enquanto exercício de reflexão:


Caso Cracolândia - São Paulo


1. Como “ler” a realidade da Cracolândia?


2. Como vcs analisam a ação do Poder Público?


3. Como vcs analisam a reação da população que sofreu a ação?


4. Quais seriam as suas indicações de ações nessa realidade, considerando a lente da cultura matrística?






Caso Favela Pinheirinho – São José dos Campos


1. Como “ler” a realidade da Favela Pinheirinho?


2. Como vcs analisam a ação do Poder Público?


3. Como vcs analisam a reação da população que sofreu a ação?


4. Quais seriam as suas indicações de ações nessa realidade sob a lente da cultura matrística?




Pontuo esse texto reflexão com uma frase da ONU, quando criada após a segunda Guerra mundial:


“Se a guerra nasce na mente dos seres humanos é na mente dos seres humanos que devem ser construídas as condições para a paz...”

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